Artigos

11-09-2018

O peso da balança

Acompanho muitos pacientes que desejam emagrecer, mudar de vida em busca de saúde e leveza. Alguns motivados pela saúde, outros pela pressão da estética ou até mesmo por algum evento importante em suas vidas, tais como: casamento, formatura, etc. Mas o que chama a atenção são os fatores motivacionais que impulsionam a tomada de decisão, o que desacomoda e mobiliza o desejo de sair deste lugar, de onde se está.

 

Independentemente do motivo, compreendo que este caminho começa pela balança. Antes mesmo de tomar a decisão de iniciar o tratamento, seja ele qual for e, não pretendo abordar aqui a eficácia de nenhum método de emagrecimento, o paciente se depara com a balança. É comum, inclusive, ouvirmos frases do tipo, “brigo com a balança deste sempre”, “tenho uma batalha travada com a balança”, “tenho medo de me pesar”. Essas e outras afirmações me fazem acompanhar o sofrimento que é essa relação entre o peso e a balança.

 

No início do tratamento, a balança serve como norteador para direcionar a conduta médica e nutricional mais apropriada, de acordo com as necessidades de cada um. Serve também para orientação daqueles que nem sabem o excesso de peso que têm. Que há anos já não se pesam, pois no fundo sabem ou imaginam sua condição, mas tudo tem seu tempo de ser encarado. Muitos são os pacientes que recebo e que não fazem ideia do seu peso, pois evitam ou evitavam a balança e a frustração que ela poderia lhe causar.

 

No entanto, não é a balança a causadora de tudo isso, da frustração, do desgosto, susto ou desânimo. Ela serve para nos confrontar com a realidade da qual não estávamos querendo ou podendo enxergar. O que mesmo aqueles dígitos dizem a seu respeito? O que mesmo eles estão representando? Qual o verdadeiro significado do estado em que me encontro? Encontro consigo mesmo!

 

Esse é o primeiro norteador. A balança vai proporcionar estabelecer uma meta, programarmos o caminho a seguir e a partir dai ela também servirá para medir nossas conquistas, servirá para avaliação do que está dando certo e do que não está e muitos serão os momentos em que ela traduzirá os resultados alcançados.

 

Percebo que há muita expectativa posta na balança. Expectativa de que ela recompense com a perda de peso. Recompense todo esforço e sacrifício feito ao deixar de comer e beber, ao mudar hábitos, ao se exercitar. Então quando sobe na balança e vê que eliminou 1, 2 kg ou mais parece que todo esforço compensa. Mas esta relação não vai muito longe. É chegada a hora em, que por vários motivos, a perda de peso não vai ser direta ou imediata. Você começa a perceber que se trata de uma mudança física, mas também psíquica, onde é necessário desenvolver habilidades para lidar com as frustrações, paciência, perseverança e acima de tudo constância. Pois não é a balança que traz a recompensa, mas sim seus hábitos. Os hábitos e o estilo de vida.

 

E é neste momento que vejo o quanto a balança pode ser um motivador tanto quanto um desmotivador, pois acostumados a não persistir, a desacreditar do resultado diante de tantas tentativas e reganhos de peso, fazem da balança um enorme gerador de angústia. Mais do que perder peso, este processo de tratamento deve abranger e considerar o sujeito como um todo. Com todos os seus “pesos” e que a balança pode ser mais um entre tantos. Se subir na balança é mais fonte de angústia do que de controle algo precisa ser revisto. É claro que precisamos consultar a balança para nos mantermos no controle, já que muitos temos uma distorção em relação a aumentar ou a diminuir os danos.

 

Utilizando um pouco do sentido da palavra balança, temos um instrumento que serve para pesar, comparar massas e medir forças. O “pesar” por sua vez tem por tradução determinar e medir o peso, assim como outros significados. O “pesar” pode ser interpretado também como algo que influencia decisivamente assim como pode também causar sofrimento e tristeza.

 

Aqui me detenho no sentido de que pesar-se não é simplesmente saber de um número, mas sim pensar no que ele representa. Do que ele fala?

 

Muitos são os significados, assim como o papel da balança na vida e no tratamento de cada sujeito. Para alguns, pesar-se diariamente é o que lhes faz manter o foco, o parâmetro das medidas em relação às suas escolhas. Para outros, pesar-se é motivo de angústia, quase uma tortura. Talvez se pesem e fiquem motivados e alegres com o resultado, mas talvez nunca consigam estar satisfeitos com o que conseguem alcançar. Fonte de uma eterna insatisfação. De desmotivação quando não “emagrecem”. Só que se esquecem de que muitas conquistas a balança não é capaz de medir, tais como as mudanças de comportamento.

 

Por fim, precisamos entender que somos sujeitos individuais, diferentes uns dos outros e temos de respeitar estas diferenças. Compreender a serviço do que estou utilizando a balança: É para me recompensar? Para negociar comigo mesmo? E então poder encontrar um equilíbrio na balança, na vida e no peso.

 

 E para você, qual é o peso da balança?

 

 

Fabiana Alves Pereira, Psicóloga e Psicanalista

Especialista em Transtornos Alimentares

CRP/RS 07/20146

Compartilhe

‹  Voltar