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02-09-2018

A auto-imagem corporal entre adolescentes brasileiros

A auto-imagem corporal corresponde à percepção do indivíduo quanto ao tamanho e às suas formas corporais associada aos sentimentos de que essa representação possa ocasionar. De forma sucinta, representa a relação entre o corpo e os processos cognitivos como crenças, valores e atitudes individuais, que podem ser influenciados pela mídia, pais e amigos.

 

A correta percepção da imagem corporal na adolescência é um tema de suma importância tendo em vista que esta é uma fase de transição, com mudanças corporais constantes, em que os adolescentes se tornam mais vulneráveis às influências externas.

 

A distorção da auto-imagem nesta fase da vida está associada a um maior risco de distúrbios de humor, como depressão e ansiedade, e transtornos alimentares, como anorexia, bulimia e compulsão alimentar. 

 

Conforme alguns estudos, as taxas de insatisfação com a imagem corporal nessa faixa etária alcançam cifras tão altas quanto 70%, sobretudo entre meninas e indivíduos acima do peso. Meninas adolescentes insatisfeitas com seu peso apresentam um risco 4 vezes maior de transtornos alimentares, de acordo com um trabalho americano. 

 

O estudo sobre a auto-imagem corporal publicado recentemente, no qual sou uma das autoras, teve como objetivo avaliar o grau de concordância entre o estado nutricional e a auto-imagem entre adolescentes brasileiros. Foram incluídos jovens entre 12 e 17 anos de idade participando do Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes (“ERICA”), um estudo nacional que coletou dados de várias cidades brasileiras totalizando 71.740 estudantes.

 

Os resultados demonstram que 3 a cada 10 adolescentes apresentam distorção entre o peso e a imagem corporal. Ainda, a prevalência de insatisfação com o peso foi de 45%, maior entre as meninas, adolescentes mais velhos, aqueles abaixo ou acima do peso e entre aqueles fisicamente inativos.

 

Além disso, os adolescentes com distorção da sua auto-imagem e insatisfeitos com o seu peso foram mais propensos a apresentar uma triagem positiva para transtornos mentais. Esses achados destacam a associação entre a insatisfação corporal e o bem-estar psicológico. Nesse sentido, adolescentes insatisfeitos com a imagem corporal relatam mais frequentemente queixas de problemas de saúde psicossocial como distúrbios do sono, ansiedade, estresse, depressão, baixa auto-estima e uma pior qualidade de vida.

 

Considerando que a percepção incorreta da imagem corporal pode induzir comportamentos não saudáveis ​​entre os adolescentes, tanto no sentido de dificultar o manejo e a manutenção de um peso saudável, quanto no maior risco de transtornos psiquiátricos, a identificação precoce dos fatores associados a esta distorção torna-se fundamental nessa faixa etária. Por isso, adolescentes referindo distorção da imagem corporal merecem uma investigação mais pormenorizada em relação à sua saúde mental.

 

Por fim, apesar de não se saber qual o grau de insatisfação que deve ser considerado como preocupante na adolescência, profissionais da área da saúde, em especial médicos endocrinologistas e nutricionistas, devem ficar atentos a jovens referindo descontentamento com o seu corpo, especialmente entre aqueles com um estado nutricional adequado. Comparações excessivas com os colegas, comentários pejorativos por familiares e uma pressão apelativa pela mídia por um determinado esteriótipo podem ser os desencadeadores tanto de distorção quanto de insatisfação corporal, com repercussões psicológicas catastróficas.


 

 

Referência:

1. Self-perceived body image, dissatisfaction with body weight and nutritional status of Brazilian adolescents: a nationwide study. Moehlecke M, e colaboradores. J Pediatr (Rio J). 2018 Aug 9. pii: S0021-7557(18)30503-5

2. Risk factors for onset of eating disorders: evidence of multiple risk pathways from an 8-year prospective study. Behav Res Ther. 2011;49(10):622-27.

 

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